Harper Collins Brasil Livros Resenha

Vacas, Dawn Potter

Por que vacas?

Nem toda mulher que ser uma princesa.

“Vaca: a fêmea adulta de uma raça domesticada de gado, usada como fonte de leite ou carne”.

Vacas foi publicado pela Harper&Collins Brasil, de autoria da Dawn O’ Porter. Ela é jornalista, designer e colunista, também produtora de diversos documentários. “Vacas” abre portas no mercado editorial voltado para assuntos femininos, principalmente o feminismo, o empoderamento e um discurso franco sobre a vida de uma mulher moderna. Em tempos que o mundo virtual permite que mulheres tenham ainda mais voz e possam lutar pelos seus direitos, raramente encontramos autoras capazes de falar com tanta sinceridade.

Construir uma história com uma personagem abertamente sexual? Ok. Ter três personagens com problemas distintos, julgadas por suas escolhas de vida e com suas histórias unindo de alguma forma? Não encontramos por aí.

Dawn entrega Vacas uma nova maneira de criar histórias, com um pouco de tudo, sem ser clichê, hilário e terrivelmente doloroso, capaz de arrancar as mais profundas lágrimas. Sentimos indignação e a terrível sensação de impotência por viver em mundo onde a sociedade acredita que a sua vida deve ser moldada de acordo com que ele querem. E no final das contas, nem a própria sociedade sabe o que quer.

Temos três protagonistas: Cam, Tara e Stella. Três mulheres que são distintas em suas personalidades, aparências e problemas, mas todas elas são oprimidas e pressionadas a serem o que não devem ser.

“Vacas estão destinadas a um estado hormonal constante, grávidas ou produzindo leite. Toda novilha é um pedaço de carne, meramente uma fonte de produção em potencial. Mas, pelo visto, não oferecem muita coisa além disso”.

Cam é uma blogueira famosa, mais de trinta, solteira, sexualmente ativa e que seu trabalho é falar sobre suas reflexões, suas aventuras e ao mesmo tempo trazer o outro lado da moeda que nem todo mundo pensa. Ela fala abertamente sobre ser feliz sozinha, sobre não desejar ter filhos e da pressão que a internet exerce nas suas escolhas.

Não era somente sobre aguentar haters que não concordam e distribuem ódio gratuito, mas sobre perceber que não existe aceitação por escolher ser quem quiser ser. Ela sabia que a sua própria família não aprovava suas escolhas. E que suas leitoras eram dividas entre amá-las e odiá-la. Mesmo assim, seus textos eram incríveis, não precisamos concordar em sua totalidade com as atitudes da personagem, o que ninguém pode negar é que ela era uma das mulheres mais fortes do mundo da literatura.

Tara é uma mulher de 42 anos, mãe solteira, produtora de documentários que luta com o machismo no seu ambiente de trabalho. Ela precisa estar sempre provando que é boa profissional, principalmente quando seus colegas fazem pouco caso dos seus compromissos maternais. Diariamente luta com a balança de ser boa mãe e boa no seu trabalho. E para sermos honestas com nossos sentimentos, nunca sabemos em que devemos ser boas.

Sempre somos cobradas para sermos melhores no trabalho porque somos mulheres. Temos que cuidar da casa porque somos mulheres. Também temos que imediatamente sermos doces e maternais porque somos mulheres!

Ela nunca sabe como vai terminar seu dia. E mesmo assim, tem encontros toda sexta a noite, ainda a procura do homem que poderá ou não fazer parte da sua vida. Não que ela precise de um. Tara parece estar perdida, até que uma tragédia online acontece e coloca toda sua vida de cabeça pra baixo e aí, finalmente, ela descobre a força que tem. Aprende as suas qualidades e literalmente manda a sociedade enfiar seus comentários e opiniões no buraco de onde saíram.

Stella contribui a parte mais interessante da história, envolvida em um mistério e parecendo sofrer com graves problemas psicológicos. Seus capítulos eram mais curtos que a maioria. Ou foi apenas a sensação devido a intensidade dos seus pensamentos e sua breve interação com o namorado. Ela sofre o luto e a raiva de uma maneira comum. Sem buscar tratamento, lidamos com sua dificuldade de seguir em frente. Sendo leitora de Cam, pudemos entender como a autora escolheu como interligar as histórias de uma maneira inteligente.

A leitura não é cansativa, apesar das mudanças de ponto de vista. E em meio as cruzadas que conseguiram dar, ão podemos deixar de mencionar Jason. Parecia que seria mais um coadjuvante na vida de uma personagem. E apesar de ser homem, não encarou o antagonismo, não existiu um vilão. Dawn mostrou que importar e aceitar a opinião da sociedade em nossas vidas é a verdadeira vilania que enfrentamos diariamente.

Vacas é a leitura perfeita para mulheres que precisam entender o feminismo em suas diversas facetas. Perceber que empoderar-se não está somente em x. Está todas as letras do alfabeto, contanto que aja liberdade, equidade e direitos iguais perante a sociedade. Também sobre o posicionamento que devemos tomar atingirmos o equilíbrio, impeça o que te domina no seu crescimento profissional. Recuse rótulos pela sua sexualidade. Não se use como desculpa, se você não encara ser mulher como um impedimento para seu sucesso, siga em frente.

 

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