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Não Foi Culpa Dela

Aquela mina anda curvada na rua, carregando um peso que não deveria, que outras pessoas não suportariam. Seus olhos estão sempre para o chão, seus passos sempre calculados para não ganhar mais um tropeço, seus joelhos não aguentam mais serem ralados nas estradas ruins da vida. Suas mãos parecem relaxadas, estão abertas, porque é mais fácil para erguer o sinal de “pare, por favor, eu não aguento”. Sua vida está frágil e sua cabeça está carregando uma nuvem de frustrações, medos e culpa que a impedem de dormir. Um erro e as cordas se amarram nas pernas, impedindo de seguir em frente, de alcançar o sucesso. Como seguir em frente se há tanto para se resolvido no passado?

Ela não desejou errar, nem fez de propósito, jamais quis ferir seu próprio caráter ou levar um dano moral.a vida de outras pessoas. Ela só foi ingênua, inexperiente e mal orientada, também não soube lidar com a pressão. Mano, ela falhou tanto que tem vergonha de pensar no assunto. Foi massacrada e é a vida profissional que tanto sonhou ruiu logo no primeiro trabalho. Parece até burrice dizer bem feito. Burrice não, crueldade, porque a mina sabe que o tempo de resolver passou e agora, as duras consequências irão atingir sua vida fragmentada como um tsunami. Seus sonhos flutuam errantes ao seu redor e ela nem sabe como se segura-los e nem acredita que deva, que depois de um ano de tentativas e todas as falhas e fracassos, ela se colocou no lugar de espera, aos pouquinhos começou a pagar suas dívidas, limpar seu nome financeiramente, mas o que dirá moralmente? É possível apagar o dano feito?

Não é um exagero, apesar de não grave, é doloroso para uma pessoa honesta saber que errou, sem escolha mediante a uma adversidade cruel. Agora que sua vida lentamente começa dar passos positivos a frente, não deixa de sentir o pânico lhe consumir, porque o passado nunca fica muito tempo debaixo do tapete. Ele pode explodir a qualquer momento no seu rosto e não haverá nada, nenhuma desculpa, nenhuma explicação, o dano foi feito e a culpa pesa como se não fosse possível respirar novos ares. Toda vez que algo bom ameaça nascer no horizonte da esperança, ela falha, fraqueja, não cresce, mas disserta, pensativa, se julgando e quando na verdade, ela não é má pessoa, não só por se importar, mas porque sabe, que nunca desejou errar, sabe que a falta não foi somente dela como profissional, dizem por aí que o cliente tem razão e nisso, ela se afoga na ansiedade e no pânico de ser encontrada.

Pra que viver eternamente desse jeito se assim, a vida passa e o mal apenas assola a superfície do seu bom coração? Não é fácil não, ela teme e ao mesmo tempo almeja, aquela doce menina inocente, mas batalhadora não existe mais, se afogou num mar de tubarões que usam divã como sua fonte de alimentação, ela aprendeu a lição da sua forma mais cruel e mesmo sabendo que não deve, aceita a culpa, espera a derrota e pede a Deus para sobreviver quando a hora chegar – e também que antes, consiga resolver o passado e é o deixar ir para assim seguir em frente em paz. Viva.

 

 

– Texto fictício

– Fotografia Alexandre Shark

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