Feminismo Televisão

Dê a mão, mesmo se você não gostar.

Essa semana, várias situações aconteceram na minha vida, na mídia e no mundo que me fez pensar o quanto a sororidade ainda é algo que a maior parte das meninas que se dizem feministas – porque tem muita gente que “faz parte” do movimento -, não dão a mão a todas as meninas, é a mesma questão quando Jesus disse que devemos amar o próximo como a nós mesmo, sem exceção e muita gente apedreja, sem pena, aquilo que não considera certo ou não. E como podemos ver diariamente nas redes sociais, é quase “sou feminista, mas, eu não gosto de fulana, então ela é vadia, manipuladora e etc, etc, etc”. Ok. Mulheres também não prestam. Também são corruptas. Também podem ser bem babacas, mas, eu sinceramente acredito que mesmo que a pessoa não valha nada e lá na frente possa vir apunhalar minhas costas, eu devo estender a mão e ajudar, porque não cabe a mim o julgamento. Em algum momento da minha vida, posso vir a cometer algum erro grave, porque não sou perfeita. Ninguém é perfeito. E eu trago essa reflexão porque estou quase precisando fazer terapia e me afastando definitivamente das redes sociais por não saber digerir a profunda agressão de mulheres contra mulheres.

Em algum dia durante essa semana, aconteceu o famoso troféu imprensa, não acompanhei porque estava muito ocupada no dia, mas logo recebi o link do vídeo do Silvio Santos “dando uma bronca” na jornalista Rachel Sheherazade. “Não, eu te chamei para você continuar com sua beleza, com sua voz, para ler as notícias, e não dar sua opinião”. E segue com “Ele deixa você trabalhar na televisão? Você merece (o prêmio), e merece ficar quietinha. É melhor pensar no seu novo casamento”. Vou ser completamente honesta… Não gosto das opiniões dela. Não vou dizer que não gosto dela como pessoa, porque não sei quem ela é, mas discordo de 99,9 % dos seus comentários. Quando ela ainda fazia comentários, afinal, não é surpresa para ninguém que ela ganhou uma bela mordaça da sua emissora. Em todo caso, mesmo que depois ela tenha postado que era uma brincadeira entre patrão e funcionária “Patrão, há de haver um mínimo de inteligência para entender nossas brincadeiras! Obrigado pela chance de fazer brilhar o meu intelecto!” (o que não interessa se foi), há duas coisas importantes que devem ser refletidas acima de algo que aconteceu com menos de cinco minutos.

1 – Ele a contratou por vê-la em uma filial, dando comentários e obviamente, ela fez MUITO sucesso e executou a função pelo qual foi contratada. Nós sabemos que no meio da comunicação, obedece quem tem juízo e que emissoras são ligadas a política, não importa o quão errado isso seja e de fato, os comentários dela afetou alguns patrocinadores. Btw. Não justifica que ela tenha que ser reduzida a um rosto bonito pago apenas para ler o que está passando na tela. E brincadeira ou não, interpretei o comentário dele como machista sim, se ela aceitou, não muda o fato que foi ridículo. 2 – E o que mais me deixou chocada, enojada e precisando do meu psicólogo com urgência foi as minas da sororidade escrevendo comentários HORRÍVEIS. Sororidade é sororidade. Não é só com quem concorda contigo politicamente. E muitos comentários diziam “eu não gosto dela, mas…” Ninguém tá dizendo que você tem que concordar e aceitar tudo que a outra pessoa fala só porque é mulher, porém, parece que nesse sentido podemos dizer que o machismo continuará passando quando se trata de acolher aquelas que gostamos.

O respeito que você exige deve ser dado na mesma intensidade.

E o segundo exemplo da falta de solidariedade e sororidade alheia é o caso da Emily do BBB. Ok, eu não assisto o reality há anos – acho que desde a primeira edição – e também não fazia ideia quem ela era até que minha timeline do facebook ficasse pipocando 1001 imagens e vídeos, relatando o relacionamento claramente abusivo que ela estava vivendo com Marcus, um homem mais velho e que encarna exatamente tudo que um homem machista opressor é (e não, não estou generalizando dizendo que todos os homens são machistas e opressores, porque sabemos que não). Ela pode ser mimada, egoísta, manipuladora (eu só vi uma menina muito imatura, mas tudo bem) e todos os defeitos do mundo. Mas eu também vi mulheres enaltecendo outra participante para diminui-la, também vi mulheres xingando uma garota de vinte anos que demonstrou não ter um pingo de orientação feminina e experiência de vida. Também vi mulheres supostamente esclarecidas e cheias de razão xingar outra mulher porque não “gostava dela e que merecia aquele relacionamento”. Empatia, certo? Aham, tá.

“Sororidade é a união e aliança entre mulheres, baseado na empatia e companheirismo, em busca de alcançar objetivos em comum. Do ponto de vista do feminismo, a sororidade consiste no não julgamento prévio entre as próprias mulheres que, na maioria das vezes, ajudam a fortalecer estereótipos preconceituosos criados por uma sociedade machista e patriarcal”. Você não escolhe a quem ter empatia, ela tem que ser geral. Dentro do próprio reality show, a Vivian mostrou ter empatia e sabedoria para o momento que a Emily estava vivendo, junto com a Ieda. A Emily faria o mesmo? Não importa. A Vivian fez o que toda mulher deve fazer e não é pra ser enaltecida, temos que parar com essa ideologia que quando alguém não faz nada além que a sua obrigação como ser humano merece um prêmio. Provavelmente estou sendo dura demais, porém, eu realmente devo dizer que não adianta você compartilhar que mulheres morrem a cada 13 minutos no Brasil se em situações parecidas ou que não sejam exatamente de alguém que solidarize, é a primeira a levantar a mão e jogar uma pedra.

Dê a mão mesmo que você não gosta e faça a sua parte, mesmo que não receba de volta. A vida encarrega toda reciprocidade que devemos ter.

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