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Ainda estou aqui

Trocamos nossos votos quando criança.

Consegue lembrar? Meus cabelos tão enrolados e em pé, envolvidos em um pano de aparador de mesa. Era de renda, o suficiente para fingir um véu. Usava uma camiseta vermelha com pássaros brancos, parecia um menino, ainda mais com a bermuda cargo azul e sapatos vermelhos. Você já era mais alto que eu, branco com as bochechas vermelhas, cabelos loiros em pé, espetados e seus olhos eram tão mais claros que lembro de compará-los as balas de açúcar que minha avó fazia depois do lanche. Sua camisa cinza era desbotada, a roupa de brincar. E a bermuda? Azul, claro como o céu e os pés descalços. Sempre descalços. Até hoje, quando te vejo com os pés no chão, não reprimo a vontade de sorrir e melancolia de quando a nossa maior preocupação era não ser pego descalço na rua.

Andei na sua direção, no corredor improvisado da sua casa, as folhas de coqueiros eram altas naquela época e provocavam sombras pelo caminho. Meu primo estava lá, com a gola clerical e uma toga, rezando o nosso matrimônio antes mesmo de dizermos sim. E dizemos. Aquela simples palavras, sussurradas no meio de uma brincadeira tão real, marcou a nossa vida para sempre. Ainda estamos aqui. Ainda estou aqui. E como é possível depois de tudo que aconteceu?

Crescemos acreditando que aquele dia foi apenas um momento bobo, mas nunca desapegamos da lembrança. O sim criou um elo que nunca foi quebrado. É por isso que estamos aqui, ainda tentando fazer valer aqueles votos, acreditando em cada palavra repetida. Depois de dez anos entre muitas idas e vindas, não conseguimos separar nossos dedos mindinhos cada vez que andamos lado a lado. Não deixamos de ligar primeiro para o outro quando temos uma boa notícia e recorremos para o conforto de nossos abraços em momentos difíceis. Passamos pela pobreza, usufruímos a riqueza, superamos a doença, nos divertimos com a saúde, brindamos a alegria, e suportamos a tristeza e cruzamos nossos braços, desejando que a morte nunca nos separe.

Ainda estou aqui, mesmo sem coragem de dizer sim novamente, mesmo com medo das responsabilidades de uma vida a dois, não consigo ir embora, seguir adiante e esquecer aquele dia, porque o elo é tão forte que me puxa de volta, sempre caminhando na sua direção, não importa com que roupa estou vestindo ou até mesmo para onde estou indo, você sempre está lá, no final, me esperando, sorrindo ironicamente, pronto para jogar uma piada sobre a minha aparência, para depois ter a oportunidade de me abraçar e dizer que estava apenas brincando. Ainda estou aqui, amando você, daquela forma gentil e inocente. Ainda estou aqui, te desejando como mulher. Ainda estou aqui, ansiando pela sua amizade e companheirismo. Estarei sempre aqui, por favor, me espera chegar até a você no corredor.

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